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Receitas para a inteligência

Revista ÉPOCA - outubro - 2005

A Ciência descobre como alimentos, exercícios e remédios podem estimular o cérebro e melhorar seu desempenho. No futuro, a História vai se referir à Ciência de hoje como a era do cérebro, tantas as pesquisas e descobertas sobre essa máquina delicada, misteriosa e complexa.
"Pela primeira vez, temos hoje a oportunidade de estudar o cérebro vivo, trabalhando, pensando e sentindo - um avanço na história da humanidade", diz Nancy C. Andreasen, professora da Universidade de Iowa, editora do American Journal of Psychiatry e autora de Admirável Cérebro Novo.
A neurocientista americana diz que o progresso das diversas tecnologias possibilita que os pesquisadores esquadrinhem o cérebro como um mapa e determinem as chaves para o bom funcionamento desse órgão.


 


ÉPOCA reuniu, nas próximas páginas, um painel das descobertas que mais afetam a vida cotidiana. Resumidamente, são seis passos que podem produzir novos neurônios e estimular as conexões cerebrais. Alguns são simples e infalíveis, como fazer meia hora de exercícios aeróbicos três vezes por semana - o suficiente para aumentar em 15% o poder de concentração e aprendizado. Outros ainda causam polêmica, como usar medicamentos que aceleram o funcionamento da mente. Para o futuro, cientistas estudam injeções capazes de estimular o crescimento de células. E testa-se o aparelho de estimulação magnética transcraniana - hoje usado no tratamento de depressão - para estimular os centros que controlam a criatividade e o humor. Por enquanto, essas são apenas possibilidades. Mas o presente já traz novidades bem atraentes.

Atividade física
Mais neurônios com exercício.
Adolescentes que fazem esportes regularmente apresentam desempenho 20% superior ao dos sedentários em testes escolares. Até recentemente, essa idéia seria tida como ficção científica. Mas pesquisas comprovam que o exercício físico é capaz de estimular, de fato, a produção de neurônios, as células do cérebro. Durante um século tevese como certo que as pessoas nasciam com um número determinado de neurônios e que ao longo da vida esse número só decrescia - afinal, eles iam ä morrendo pouco a pouco, por causa de stress, consumo de álcool, drogas ou doenças como Alzheimer. Essa idéia mudou depois de pesquisas como as feitas no Laboratório de Genética do Salk Institute, na Califórnia. Ao colocar camundongos em um ambiente "rico" - com vários brinquedos e possibilidades de interação social e atividade física -, cientistas descobriram que havia a produção de novos neurônios no hipocampo, região onde se processam a memória e o aprendizado. "O simples fato de existir rodinhas para os camundongos se exercitarem já era suficiente para estimular a criação de neurônios", diz o neurobiólogo brasileiro Alysson Renato Muotri, pesquisador associado do Salk Institute. Os cientistas procuraram também investigar se, colocados para nadar -situação estressante para os bichos - ou forçados à atividade física, os animais ganhavam células nervosas. O efeito foi negativo. "O exercício precisa ser voluntário e prazeroso para que ocorra maior produção de neurônios", diz Muotri. Outros testes concluíram que animais que fazem exercícios têm melhor memória e maior capacidade de aprendizado. O efeito também foi notado em relação à idade: "Animais mais velhos que se exercitam regularmente têm memória e maior capacidade de aprender novas informações que jovens sedentários", acrescenta.

Adultos que caminham três vezes por semana melhoram em 15% sua capacidade de aprendizado, concentração e raciocínio abstrato. Além de estimular novos neurônios, o exercício tem uma conseqüência direta no cérebro: aumenta o nível de oxigênio no órgão, deixando-o mais "plugado". "Exercícios estimulam a circulação, fundamental para o cérebro funcionar. É a maneira mais simples e barata para turbiná-lo", diz o neurocientista e psiquiatra Daniel Amen, premiado autor de vários livros sobre o assunto, entre eles o recém-lançado Making a Good Brain Great (Fazendo um Cérebro Bom Ficar Maravilhoso). "Recomendo jogar pingue-pongue. É um exercício aeróbico que melhora a coordenação visual e motora. Usa a parte de cima e de baixo do corpo, levando várias regiões do cérebro a trabalhar", afirma ele. Outro benefício é estimular a produção de serotonina, o neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar.

Alimentação
Inteligência à mesa.

Crianças que fazem um desjejum reforçado tiram notas melhores em comparação às que pulam a refeição ou ficam no café com pão. Novos estudos também associam a performance intelectual à dieta. Recentemente, a Tufts University, reconhecida mundialmente por seus estudos ligados à educação, divulgou trabalho com a comprovação de que crianças bem alimentadas tiram notas melhores que seus colegas que se abastecem de junk food. Mais: alunos entre 9 e 11 anos que comeram cereais, frutas e iogurte no café-da-manhã mostraram maior capacidade de memória espacial, habilidade importante na resolução de problemas de matemática e ciências. "Alimentar sabiamente a mente leva-a a trabalhar melhor", afirma Michael Roizen, médico americano, fundador de um dos mais conceituados centros de estudo da saúde e do metabolismo humano. Não se trata apenas de diminuir as calorias. É preciso saber separar os alimentos que fazem o cérebro ficar mais ativo daqueles que tendem a diminuir sua performance (leia as quadros nas laterais das páginas). Sanduíches, salgadinhos e refrigerantes, por exemplo, são pobres em nutrientes, especialmente ä minerais, que têm papel importante no sistema nervoso central. A falta desses nutrientes prejudica o rendimento cerebral e a qualidade do sono. Por sua vez, ovos ajudam o corpo a produzir o neurotransmissor acetilcolina, usado na memória.

DIETA ESPERTA
Confira os alimentos que turbinam o cérebro.

Peixes com ômega-3: os ácidos graxos são os "lubrificantes" da cabeça. Peixes como salmão, truta e atum fazem as células ficar mais rígidas e aumentam a produção dos neurotransmissores responsáveis pela disposição e pelo bom humor Frutas e óleos vegetais: o cérebro produz grande quantidade de energia e, dessa forma, gera também muitos radicais livres. Por serem antioxidantes, as vitaminas C e E atuam como neuroprotetores. A vitamina B12 e o ácido fólico melhoram a memória
Carboidratos: a glicose é a energia exclusiva do cérebro. Por isso, ficar muito tempo sem comer carboidratos diminui a atividade mental. Carboidratos complexos (pão, batata, grãos) são absorvidos mais lentamente, fornecendo energia de forma regular. Já o açúcar dos doces é absorvido tão rapidamente que é armazenado como gordura, sem fornecer energia de modo constante
Café: a cafeína é um potente estimulante do sistema nervoso central. Tem efeitos positivos, como aumento da disposição física e diminuição do sono. Em excesso, causa danos à memória
Proteínas: são formadas por aminoácidos como o triptofano, que atua no sono e na performance cerebral. Ex.: leite, queijo branco, carnes magras e nozes
Morango e mirtilo (blueberry): essas frutas tendem a produzir melhora considerável na concentração, coordenação motora e memória

Remédios
Viagra para o cérebro?

MODA
Europeus e americanos aderiram ao modafinil para ficar plugados por mais tempo. Receitados para tratar doenças, alguns medicamentos têm sido usados para melhorar a performance mental, o que causa polêmica. O modafinil é um desses casos: indicado para o tratamento da narcolepsia (doença que provoca sono súbito e incontrolável), é agora consumido como estimulante por quem quer manter-se em alerta por muito tempo. Há quem diga ser possível ficar acordado por 60 horas sem nem piscar os olhos. Mas o uso prolongado tem diversos efeitos colaterais, como irritabilidade, tontura e dor de cabeça. Nos EUA e na Europa, onde o remédio já é vendido, as pessoas não estão muito preocupadas com as conseqüências. O número de receitas dobrou de 1 milhão em 2002 para 2 milhões no ano passado, com faturamento de US$ 440 milhões. Segundo o laboratório Cephalon, que espera um aumento de 25% neste ano, mais da metade dos usuários compra o remédio para efeitos que não estão indicados em sua bula. É o "Viagra" de quem precisa encarar uma longa jornada depois de uma noitada ou estar mais alerta para fechar um negócio ou participar de uma reunião de trabalho.

A ritalina, substância indicada para quem tem síndrome do déficit de atenção e hiperatividade, também vem sendo usada como estimulante. Da mesma classe das anfetaminas, a ritalina proporciona maior concentração e aumenta o estado de alerta. Pesquisadores fizeram um teste para ver se essa vantagem era mesmo mesurável: por meio de tomografias, detectaram que os níveis de dopamina - o neurotransmissor responsável pela euforia e pelo estado de alerta - subiram. Outra droga é a ampaquina, classe de medicamento que vem sendo usada experimentalmente como tônico da memória. Estudos mostram que ela pode melhorar as sinapses cerebrais. "A ampaquina modula o glutamato, substância que age no sistema excitatório do cérebro controlando o aprendizado e a capacidade de memória", diz Rodrigo Bressan, psiquiatra da Unifesp. Os médicos têm dois grandes receios: que o remédio impeça o cérebro de filtrar informações e, principalmente, de esquecer o que não se deseja mais lembrar.

Sono
Um poderoso aliado.

ESSENCIAL
Ao contrário do que muitos pensam, dormir não é um desperdício de tempo. A cabeça continua "plugada" nos problemas e funciona melhor ao acordar. Há quem se vanglorie de dormir quatro, cinco horas porque acha um desperdício ficar oito horas na cama. Mal sabe que dormir pouco tem conseqüências diretas na atividade mental. Deixar o cérebro descansar significa ter sua capacidade de ação aumentada. "Dormir pouco é como correr a São Silvestre com uma lesão", compara o neurologista Flávio Alóe, do Centro de Estudos do Sono do Hospital das Clínicas. "Você termina a corrida, mas pode errar mais, demorar muito tempo para concluí-la e se prejudicar."

O cérebro sofre muito com uma noite mal dormida (leia o quadro à pág. 74). Essas alterações estão ligadas à privação do sono REM, o período em que acontecem os sonhos. É durante essa fase que o cérebro armazena o que foi aprendido durante o dia e deleta tudo aquilo que não interessa. Vários estudos comprovam que quem passa o dia estudando um problema e tem uma boa noite de sono acorda com novos e mais certeiros caminhos para resolvê-lo. Vale tanto para questões profissionais como para um jogo de videogame e até para dilemas pessoais. Há evidências também de que uma ou duas horas extras na cama levam a uma performance melhor em atividades como uma prova. Quando se dorme mais, o poder de concentração aumenta.

CONSEQÜÊNCIAS DE UMA NOITE MAL DORMIDA
Quando se dorme menos que o necessário, ocorrem alguns tipos de comprometimento.

A criatividade, a concentração, o aprendizado e a capacidade de planejar e resolver problemas diminuem O humor sofre oscilações repentinas O raciocínio fica lento A chamada memória de trabalho (working memory) falha: uma pessoa está conversando com outra, toca o celular, alguém dita um número de telefone que precisa ser guardado. Quando ela quiser ligar para esse número, a memória a trairá (Fonte: University of California).

Memória
Potencial para o futuro.

Ler temas novos e interessantes tem o efeito de um exercício para a memória. Treinar a memória equivale a treinar os músculos do corpo - é preciso usá-la ou ela atrofia. Há duas boas maneiras para fazer isso: a primeira é a leitura, porque, no instante em que se lê algo, ativam-se as memórias visual, auditiva, verbal e lingüística. "A qualidade do que se lê importa mais que a quantidade, porque gostar do assunto gera interesse", diz o médico e pesquisador Iván Izquierdo, diretor do Centro de Memória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. A memória sofre influência do humor e da atenção, despertada quando existe interesse em determinado assunto ou trabalho - o desinteresse, ao contrário, é uma espécie de "sedativo", que faz a pessoa memorizar mal. A outra forma de deixar a memória viva é o convívio com familiares e amigos, com quem se podem trocar idéias e experiências. "Palavras cruzadas são inferiores à leitura, mas também ajudam. Da mesma forma que ouvir uma música e tentar lembrar a letra ou visitar uma cidade para onde já se viajou e relembrar os pontos mais importantes", afirma Izquierdo.
É preciso corrigir o estilo de vida para manter a memória funcionando bem. "Uma pessoa de 40 anos só sofre de esquecimento se viver estressada e tiver um suprimento de informações acima do que é capaz de processar. Não dá para esperar o mesmo nível de retenção de informação quando se lê um e-mail enquanto ä se conversa ao telefone e é interrompido pela secretária. É preciso dar tempo para o cérebro", explica o psiquiatra Orestes Forlenza, da USP.
Segundo Barry Gordon, professor da Johns Hopkins Medical Institution, a memória "comum" focaliza coisas específicas, requer grande quantidade de energia mental e tem capacidade limitada, deteriorando-se com a idade. Já a "inteligente" é um processo que conecta pedaços de memória e conhecimentos a fim de gerar novas idéias. É a que ajuda a tomar decisões diárias, aquela "luz" que se acende quando se encontra a solução de um problema. Por exemplo: a comum esquece do aniversário da mulher; a inteligente lembra o que poderia ser um presente especial para ela. A comum esquece o nome de um conhecido encontrado na rua; a inteligente lembra o nome da mulher dele e onde ele trabalha, pistas que acabam levando ao nome da pessoa.

Relaxamento
Alma leve, cabeça idem.

Manter a cabeça tranqüila, livre do stress e dos pensamentos negativos, também melhora a performance mental. Inimigo do corpo, o stress também faz mal para a mente. Os hormônios produzidos por ele matam células neurais ligadas à memória. Fazer ioga e meditação ajudam. Mas não basta apenas relaxar. "Você é o que você come e também o que você pensa", diz o neurocientista Daniel Amen. "Quando temos bons pensamentos, nossa mente libera substâncias químicas diferentes de quando estamos zangados. O stress do pessimismo gera substâncias que atrapalham o fluxo sanguíneo. E tudo o que prejudica a circulação interfere no bom funcionamento cerebral", diz Amen. Ouvir música também faz bem. "Gera estimulação cerebral, principalmente nas áreas ligadas ao prazer", diz o psiquiatra Forlenza. "E ajuda a estimular processos intelectuais, como raciocínio e pensamento."

Revista ÉPOCA - outubro - 2005